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6.8.03

Espanha desenterra o passado 

Há dias, coloquei uma nota para divulgar esta associação espanhola. No passado Domingo, a jornalista Liliana Duarte noticiou no Público o mais recente trabalho da ARMH:


«Espanha Desenterra Vítimas da Repressão Franquista

Depois de nove dias de trabalho intenso, os corpos dos dezasseis funcionários do Hospital de Valdediós, nas Astúrias, fuzilados pelas tropas franquistas no decorrer da guerra civil espanhola, foram esta semana retirados da vala comum para onde foram lançados na noite de 27 de Outubro de 1937. 65 anos passados sobre a fatídica noite, os familiares dos médicos e enfermeiras assassinados com um tiro na nuca têm agora a possibilidade de enterrar os seus mortos.

A vala comum de Valdediós, a dez quilómetros de Villaviciosa, é, no entanto, apenas uma das doze que a Associação para a Recuperação da Memória Histórica (ARMH) pretende vir a escavar até ao final do Verão. Criada para "recuperar a justiça, a verdade e a dignidade que têm de ser restituídas àqueles que foram sacrificados como consequência da repressão franquista", a ARMH foi fundada em Dezembro de 2000 por Emílio Silva e Santiago Macías.

Desde criança que Emílio Silva, um jornalista madrileno de 37 anos, vivia fascinado pela história "proibida" do desaparecimento seu avô, Emílio Faba. Comerciante de Villafranca del Bierzo e membro da Esquerda Republicana, Emílio Faba foi detido e fuzilado pelas tropas fiéis a Franco na noite de 16 de Outubro de 1936. O seu corpo foi enterrado numa vala comum em Priaranza, na região de León, mas à sua mulher e filhos foi dito que Faba havia fugido da cadeia durante a noite.

Na Primavera de 2000, Emílio Silva deixou Madrid e dirigiu-se para Priaranza, seguindo as pistas deixadas por um sobrevivente do fuzilamento que vitimara o seu avô. Com a ajuda de um habitante local, o jornalista descobriu a vala comum onde haviam sido lançados os corpos de Emílio Faba e de outros doze homens. Em Outubro do mesmo ano, a vala comum de Priaranza del Bierzo tornava-se a primeira a ser aberta depois do fim da ditadura do "generalíssimo" Franco em 1975. Mas muitas outras valas permaneciam ainda por localizar.

Durante a guerra civil espanhola e nas três décadas de repressão franquista que se lhe seguiram, cerca de 30 mil pessoas terão desaparecido. No período em que procurava pistas acerca do misterioso destino do seu avô, Emílio Silva conheceu dezenas de histórias semelhantes à do seu familiar. Foi "o desejo de devolver os mortos às suas famílias" que, em conjunto com Santiago Macías, um jovem que ao longo de sete anos recolhera depoimentos de ex-combatentes da resistência republicana, o levou a fundar a ARMH.

Nos últimos dois anos, a associação tem-se empenhado não só em localizar e desenterrar valas comuns, mas também em promover a sua causa junto do Governo de José Maria Aznar. Na sequência de uma petição entregue pela ARMH ao Grupo de Trabalho das Nações Unidas para os Desaparecimentos Forçados ou Involuntários, o Parlamento espanhol aprovou, em Novembro de 2002, uma resolução que estabelece como "dever da sociedade democrática" proceder ao reconhecimento moral "de todos os homens e mulheres que foram vítimas da Guerra Civil, assim como dos que padeceram mais tarde na repressão da ditadura franquista". "Estabelecemos que qualquer iniciativa promovida nesse sentido [o de recuperar os corpos dos seus familiares] pelas famílias dos afectados, sobretudo a nível local, receba o apoio das instituições", podia ler-se no texto da resolução.

Apesar disso, o trabalho de localização e abertura das valas comuns, bem como o de recuperação dos corpos tem sido essencialmente feito pelos próprios familiares das vítimas e por voluntários vindos de toda a Espanha e de vários países estrangeiros como o Canadá, a Finlândia, a Holanda, a Irlanda, a Grã-Bretanha ou a República Checa.

Devido à mediatização das suas mais recentes escavações, a ARMH conta agora com a colaboração de algumas instituições e universidades que financiam ou realizam gratuitamente os testes de ADN necessários à confirmação da identidade dos corpos recolhidos. A identificação dos cadáveres retirados das valas comuns não é em geral uma tarefa fácil. Depois de mortos, os corpos eram despojados de todos os bens pessoais que os pudessem identificar. Por outro lado, em muitos casos não existem já familiares com que se possa comparar o ADN dos cadáveres, nem testemunhas que possam indicar a sua identidade.

Até ao momento a ARMH conseguiu recuperar apenas 65 corpos. Os responsáveis da associação garantem, no entanto, que os milhares de vítimas da repressão franquista sepultados em valas comuns espalhadas por todo o país não mais serão esquecidos. Segundo Miquel Castel, ex-preso político e fundador da Associação Imolados para a Liberdade da Catalunha, a transição para a democracia assentou na "aceitação de uma reconciliação que implicou o esquecimento do passado". Porém, "creio que o genocídio franquista e a feroz repressão tornam inaceitável pagar esse preço", acrescenta Castel, cujo pai, fuzilado em Camp de la Bota, repousa numa vala comum em Montjuïc.»

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Fonte: Público, 03/08/03

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